ASPAS.
“Então eu te espero no ponto de ônibus”
“Sim, eu te aviso quando estiver chegando.”
Sempre que se começa uma historia, abrem-se aspas esperando
assim, que quando se acabe fecha-se aspas. Eu nunca esperei ter uma historia tão
bela pra contar. Que eu tenha passado, digo. Depois de tomar meu remédio diário
de decepções eu recebo uma sms pra confirmar a presença em uma festa, ou não.
Resolvi confirmar, a companhia era ótima. Um rapaz da minha mesma altura,
moreno, com um sotaque paranaense e um senso de humor... Hum... Sem adjetivo
perfeito. Conheci pela internet, mas por conhecidos sabia que ele era real e o
quanto sua presença para todos era agradável ‘Nunca pensei que seria tão
agradável assim’, inclusive, após sua volta pra minha cidade uma amiga minha já
havia o encontrado. Enfim, aceitei seu convite em sair à tarde depois à noite. Beijamo-nos
do modo em que princesas de filmes românticos levantam a perna quase ficando na
ponta dos pés, se estivéssemos de pé, com certeza eu teria a sensação de estar
flutuando. Então vim pra casa, tinha que me arrumar pra festa que iriamos ir
mais além.
‘Se cuida nesse ônibus filha, quando chegar à festa me
avisa.’
Abanei e subi para o ônibus.
‘Já estou no ônibus, em 20min estou descendo. ’
‘Ok, já vou sair de casa então. ’
Desci toda medrosa naquele ponto de ônibus. Tudo bem que era
na frente de um posto 24h, mas nunca se sabe quem é maníaco nesse mundo. Olhei
pro outro lado da rua e fiquei até meio boba em ver ele me esperando lá. De pé,
todo arrumadinho. Atravessei a rua e coloquei a mão em seu ombro pra chamar sua
atenção. Ele segurou meu rosto e me beijou.
‘Tudo bem contigo?’
‘Estou ótima e tu?’
‘Também! Vamos?’
Assenti com um sorriso e sua mão segurou a minha. Chegamos à
festa e como inesperado da minha parte ele entrou de mãos dadas comigo.
Encontrei algumas amigas e ele alguns amigos, passamos a maioria do tempo
juntos até nos separarmos pra ir conversar com os grupos separados. Confesso
que passei o tempo todo procurando por ele, e quando o encontrava me sentia
aliviada de não vê-lo com alguma menina pendurada em seu pescoço.
Encontramo-nos pra ir embora e como sempre, vem ele com
aquele sorriso sapeca rindo me abraçando e me beijando. Sentia o gosto de
bebida na sua boca, mas o gelado me agrava muito bem. Eu não posso beber... Sabe
remédios e parara. Quando saímos de vez do salão de festas, o atrasado lembrou
que tinha que chamar os amigos pra ir embora, e ficamos lá na frente esperando.
Isso eram 3h30min. 3h40min. 3h50min. 4h00min. E nada de nenhum amigo dele.
‘Tu falas muita bobagem sabia?”– Ele disse e riu.
‘Desculpa. ’ – Fechei o rosto fingindo ficar braba
‘Ah para quieta e vem cá’
Virei-me pro outro lado e deixei de ficar olhando pra ele.
Sim, era quase impossível.
“Psiu, olha pra mim”.
Segurava meu rosto e fazia bico
‘Olha pra mim. ’
Puxou-me mais pra perto e me beijou. Nisso estávamos
sentados, com um pouco de frio. Abracei-o mais forte que pude e fiquei lhe
fazendo carinho... Ele fechava os olhos a cada toque de meus dedos em seu rosto.
Eu fazia questão de beijar cada centímetro do seu rosto, orelha, assoprava ar
quente em seu pescoço. Ele sorria e se arrepiava. Quando enfim nos beijamos era
como chegar ao oásis dos meus sonhos românticos.
‘Todos meus amigos estavam me perguntando quem era minha namorada.
’
‘Namorada? Aonde?’
‘Pois é!’
Rimos por um bom tempo
‘Acho que eu mudei, eles falaram isso, ‘Tu de casal em
festa?!’ Tive que concordar com eles, nunca fiz isso antes. Disse que tu não é
minha namorada. ’
‘É não sou mesmo’
Continuamos rindo até eu o sentir sussurrar no meu ouvido:
‘Ainda não.’
Passaram então três meninas da minha idade pela gente, eu
até conhecia da escola.
‘Mas nem bêbado eu fico com uma mandinha de 14, 15 feia
dessas!’
‘Desculpa, mas tu tá ficando com uma mandinha de 15 anos. ’
‘É diferente. ’
‘Por quê?’
‘Por que tu és linda!’
Sorri toda sem graça, pude sentir meu rosto esquentar.
‘E contigo – ele terminou – não é só atração física. Eu
gosto de ti. ’
Agora pense quem estiver lendo, alias caso alguém estiver
lendo, como que eu posso não me apaixonar ou no mínimo me iludir com tudo isso?
Impossível!
Simplesmente não respondi nada. Acho que o sorriso e a
felicidade que eu transbordei naquele momento foi o suficiente pra ele perceber
o quanto aquilo foi importante.
Já eram 6h00min quando comecei a ficar completamente exausta
e irritada de ficar esperando. Tirei os sapatos, levantei irritada de esperar
os amigos dele e disse pra sairmos dali, seja lá pra onde fosse. Ele percebeu o
quanto eu estava chateada de não ter como descansar e carregou meu sapato.
‘Quer colocar meu tênis?’
‘Não precisa. ’ Agora me arrependo completamente de não ter
aceitado, fiquei cheia de bolhas nos pés de caminhar descalça.
‘Vem, vamos por aqui. Quer comer alguma coisa? Beber alguma
coisa?’
‘Não. ’
‘Tá, mas vamos para um posto. ’
Fomos pro mesmo posto em que nos encontramos antes. Sérios o
tempo todo. Eu de cara amarrada e braba. Ele se sentindo culpado da minha
exaustão por nós termos que esperar tanto pra nada. Comprou um suco e sentamos
dentro da loja AM/PM. Acho que o atendente nunca mais vai esquecer aquele casal
pirado. As crianças não conseguiam nem abrir a garrafa do suco e sujamos toda a
mesa. Eu não parava de rir um minuto se quer, nem ele! Fazia tempo que eu não
me divertia tanto numa manhã sem graça. Então me distrai com o celular, e logo
o dele toca avisando que um sms tinha chegado. Ele olhou pra tela e riu quando
viu meu nome lá. Abriu e leu ‘Obrigado por me fazer sorrir!’. O solzinho já
batia e dava pra esquentar, então sugeri que saíssemos do posto e fossemos até
uma praça aonde na frente tinha o ponto de ônibus pra eu ir embora. Nisso já
eram 7h30min, imaginem quantas bobagens fizemos e aprontamos na loja do posto.
Sentamos em um banco iluminado pelo sol e aquecido também.
Deitei no colo dele e fiquei olhando o sol entre as folhas das arvores. Senti
seus dedos percorrendo meu cabelo bem devagar... Repetidamente. Comecei a
fechar os olhos mesmo sem querer. O sono estava quase tomando conta de mim!
Acho até que apaguei ali no colo dele. Mas de vez em quando, quando eu abria os
olhos, podia ver ele me observando “dormir”. Acabei descansando com um sorriso
no rosto. Em momento algum seus carinhos pararam.
Mais cedo, de tarde quando nos encontramos, eu havia
explicado pra ele o significado da minha tatuagem. Abre aspas e fecha aspas.
Expliquei que o livro da minha vida estava reservado naquele pequeno espaço de
pele, e que toda historia começa com abre aspas e fecha com aspas.
Quando ele me acordou pra avisar que o ônibus já ia sair, me
perguntou.
‘Então... Fechou aspas aqui?’
‘Tu acha que tem que fechar?’
‘Claro que não. ’
‘Que bom, por que eu também não acho!’
Sorri, segurei seu rosto e nos beijamos pela ultima vez.
‘Como pode me aguentar a noite toda?’ – Tive que perguntar
pra lhe provocar.
‘Tu sabe o por que ...’
Sorriu e me encheu de beijinhos... Eu realmente não sabia o porque.
E se eu soubesse, não queria admitir. Eu não queria me iludir.
O perguntei o porquê e ele ficou todo envergonhado dizendo
que eu sabia sim e não iria me dizer. Arrumou uma mexa do meu cabelo que cobria
meu rosto, sempre sorrindo. Alias sorrindo um para o outro. Levantei-me e
segurei uma de suas mãos, com minha outra mão acariciei seu rosto. Dei-lhe um
ultimo selinho, peguei meus sapatos e me virei. Senti nossas mãos escorregando
enquanto eu caminhava em direção do outro lado da rua, parecia que o mundo
tinha parado ou que no mínimo estava tudo em câmera lenta. Juro que até os
pássaros tinham parado de cantar. Olhei pra ele sorrindo e ele levantando,
corri atravessando a rua e quando fui subir para o ônibus dei uma ultima
olhada. Ele já haverá saído dali e caminhava em direção de casa. Entrei no
ônibus sorrindo, quase rindo, radiante com as pessoas todas me olhando. Aquela
menina com roupa de festa, sapato empunhado nas mãos, maquiagem já borrada,
cabelo bagunçado e um sorriso dominando o espaço em volta dela. Sentei-me e lhe
escrevi uma mensagem, na verdade um trecho de uma música do seu artista
favorito, os bons saberão de quem é:
‘Hoje eu descobri o quanto eu te quero... ’
Ele completou
‘Ursinho de dormir, vem que eu te ‘quero’ assim. ’
Terminei
‘Eu ei de conquistar, teu coração durão demais!’
E recebi de resposta
‘Que mimo meu deus!’
Ri sozinha no ônibus, até a mulher que sentava do meu lado
teve de rir de mim. Conversamos um pouco mais por sms até que lhe agradeci a
madrugada maravilhosa que ele tinha me proporcionado e o quanto eu estava
satisfeita de ter passado esse tempo ao lado dele. Agradeci o quanto ele me fez
sorrir, e que fazia tempo que eu não me sentia tão bem assim.
Sua resposta me deixou quase sem ar:
‘E se depender de mim, vai te sentir assim todos os dias. ’
Nós despedimos.
Eu não sei se o tempo todo ele falava serio, também não sei
se ele não faz isso sempre, com qualquer garota. Mas o que eu sei, é que nesse
dia eu aprendi que toda garota merece um dia de princesa. E que nem sempre é
quando a gente espera nem como a gente espera. Esses momentos de contos de fada
simplesmente acontecem da sua maneira. Ao invés da Cinderela, ou qualquer outra
princesa, eu fiz minha própria historia. Toda engraçada e cheia de detalhes só
meu, só nosso. Meu e dele. Os melhores momentos eu nunca vou me esquecer.
Agradeço seja lá quem que o colocou no meu caminho mesmo se for só por aquela
noite. Meu príncipe, não veio a cavalo, nem com uma espada brilhante. Ele
também não duelou com nenhum plebeu pra ter meu coração e a honra de me levar
ao “baile”. O meu príncipe simplesmente me fez feliz de um jeito completamente
sem explicação, uma alegria sem limite! Eu vivi meu próprio conto de fadas, uma
coisa que eu mesma tinha deixado de acreditar por conta de alguns sapos que eu
não consegui driblar no caminho. Demorou, e pode demorar garota (o) o tempo que
for, mas acredite em mim, o seu bem querer vai chegar.
Sempre que se começa uma historia, abrem-se aspas esperando
assim, que quando se acabei fecha-se aspas. Eu nunca esperei ter uma historia tão
bela pra contar. Que eu tenha passado, digo. Mas tive. E com isso fecho minhas
aspas para quem estiver apreciando essa leitura. E em meu coração deixo fluir as
energias positivas pra que minha história com Ele, não tenha final e se tiver,
que seja um... E foram felizes para sempre.”
